Mexerica Furtada

A ideia base é variação sobre o tema de uma  canção anterior: a felicidade que não dá pra ser vivida sozinha.
A imagem da mexerica é autobiográfica (não era de um vizinho, mas era “furtada”, isto é, colhida sem autorização do pomar do colégio onde estudei). A ideia de estocar (ou melhor, de que não é possível estocar) está presente na obra de Saint-Exupèry, de forma muito metafórica no Pequeno Príncipe, mas mais explicitamente no livro Cidadela. Quanto a cuspir as sementes… peço a bênção ao meu colega do furtar mexericas, Fedel, porque foi ele que sugeriu no texto original.
Essa coisa de comparar a felicidade a uma fruta, que brotou de forma gratuita no quintal de alguém, está presente na poesia “Meu pé de maracujá” da escritora angolana Anny Pereira (que eu acabei adaptando e musicando).
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Abaixo da letra da canção (MEXERICA FURTADA), seguem as outras versões: FELICIDADE FURTADA foi reescrita ontem tentando se adequar a uma estrutura de poesia mais adequada para canção; POR FALAR EM FELICIDADE é o texto original (que ontem sofreu apenas alguns pequenos ajustes).

Abraços e fique com Deus.
Um 2011 de felicidade compartilhada pra você.

Coelho

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MEXERICA FURTADA
(Alfredo S. V. Coelho, 28/12/2010)

Se engana quem pensa que pode
a felicidade guardar.
Não há dinheiro que compre
e armazém que possa estocar.
É mexerica furtada
do quintal de um vizinho qualquer:
um doce azedo na boca.
Vai ter de provar pra saber.

Se engana quem pensa sozinho
da felicidade provar.
Sozinho, assim, não tem graça…
Divertido é a gente se olhar
e gomo por gomo, entre amigos,
rir e se deliciar,
cuspindo no chão as sementes
na espera de um dia vingar.

Na lembrança ficou o sabor,
mas ainda há perfume nas mãos.
Ô fruta mexeriqueira,
nos delata para a multidão.
Felicidade é assim, minha gente,
não se prova impunemente.

FELICIDADE FURTADA

(Alfredo S.V. Coelho, 28/12/2010)
 
Acho que a felicidade 
não se encontra em nenhum armazém,
Não tem dinheiro que compre
nem armário pra gente estocar.
Só se pode é experimentar:
mexerica furtada de algum quintal.
E é claro que não se vai só
(sozinho, afinal, não tem graça!)
 
Assim, debaixo da árvore,
se desfruta com muito prazer
gomo por gomo, entre amigos,
cuspindo sementes pra vida se renovar.
Mesmo que só na lembrança,
seu perfume encharca as mãos
e segue a nos denunciar…
Não fica impune quem a felicidade provar!

POR FALAR EM FELICIDADE
(Alfredo S.V. Coelho, 06/11/2008)

Acho que a felicidade
não se compra nem se estoca.
Só é possível experimentá-la
como quem chupa uma mexerica,
daquelas que se pega escondido
no pomar no fundo de algum quintal.
E, é claro,
nunca se vai sozinho,
(porque sozinho, afinal,
não tem a menor graça!)
Embaixo da árvore
a gente desfruta com prazer
daquele gostinho bom
(azedo e doce)
gomo por gomo,
entre amigos,
Às vezes
cuspindo fora as sementes,
com a esperança
de que a vida se renove.
Embora o sabor, depois,
fique só na lembrança,
o perfume dela encharca as mãos
e nos acompanha, denuncia…
Não se prova a felicidade impunemente!

Essas poesias são do meu priminho querido.  Ele é um artista multimidia

 

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Natal

NATAL, A CHEGADA DE DEUS!
O despertar do ser humano não faz o sol nascer,
mas é o sol que desperta os seres humanos.
O despertar do ser humano não faz Deus chegar,
mas é Deus chegando que faz o ser humano despertar.
O ser humano que desperta reflete a luz de Deus.
Pelo amor que dedica a seus irmãos, ele acorda os outros
para juntos celebrar a grande festa.
Vai abrindo assim a brecha para a CHEGADA DE DEUS.

 

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

Hoje de Manhã


 Hoje de Manhã 

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer…Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e 
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me 
Sinto pensar.
Alberto Caeiro

 

Feminina

Recebi de meu primo, esta poesia que ele escreveu. Eu adorei

FEMININA

Feminina
é fábrica de linha tecida
ardendo nas chamas da vida…
é a força com que a vida mesmo
se fabrica nas tramas da vida…
Feminina
é a raiva, é revolta incontida
contra o que não dá pra aceitar…
é o que dá liga à massa do pão
bem sovada, pronta pra assar…
Feminina
é brisa soprando entre as folhas das árvores,
é canção das águas que correm pro mar…
é a presença divina
em todas as coisas
que esperam o tempo
pra desabrochar!

(Coelho, março de 2009)